Entre a Criação e a Produção: IA, Arte e o Eterno Retorno das Revoluções
- Escadas Produções Escadas
- 21 de abr. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de jun. de 2025
Por Alexandre Carvalho
Vivemos um momento em que o avanço tecnológico, novamente, se choca com nossos modos de vida, afetando profundamente nossas relações de trabalho, percepção de tempo e identidade profissional. A inteligência artificial, ao se inserir em processos antes exclusivamente humanos, suscita encantamento e pavor — sentimentos recorrentes em toda grande transição da história.
Assim como na Revolução Industrial, quando máquinas começaram a substituir braços e mãos nos campos e fábricas, hoje o que está em jogo não é apenas o emprego, mas o lugar da mente humana diante de agentes não humanos, capazes de calcular, simular e gerar resultados antes impensáveis.
Pesquisas recentes do McKinsey Global Institute apontam que até 30% das tarefas realizadas por humanos poderão ser automatizadas até 2030, especialmente em áreas que envolvem análise de dados, repetição de padrões e geração de conteúdos básicos. O relatório “The Future of Jobs”, do World Economic Forum, também indica que embora milhões de empregos sejam extintos, outros milhões — principalmente nas áreas criativas, tecnológicas e humanas — deverão emergir.
O que está mudando radicalmente não é apenas o que fazemos, mas como fazemos e com quem. A IA, mais do que uma ameaça, é um espelho que nos obriga a redefinir o que é valor, autoria e presença. Não é a primeira vez que a arte entra em crise diante da técnica.
Em 1935, Walter Benjamin publicou seu ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, onde analisava o impacto da fotografia e do cinema sobre o valor de “aura” da obra de arte original. Theodor Adorno e Max Horkheimer, pela Escola de Frankfurt, reforçaram esse olhar crítico ao desenvolvimento de indústrias culturais. Para eles, a técnica aplicada à arte tendia à padronização e ao esvaziamento de sentido.
No entanto, a história mostrou que esses mesmos meios técnicos — tão temidos à época — também abriram novos caminhos expressivos, estéticos e sociais. A arte não morreu com o cinema, a pintura não acabou com a fotografia. Mas mudou. E talvez, como hoje, a maior ameaça não fosse a técnica em si, mas o modo como nos relacionamos com ela.
O próprio Hayao Miyazaki, mestre da animação japonesa, reagiu com repulsa ao ver um experimento de IA que emulava movimentos de personagens animados. Para ele, a animação está intrinsecamente ligada à alma do criador, à intenção, à experiência humana — e não a uma busca por produtividade. É uma crítica legítima, enraizada em uma filosofia artesanal. Por outro lado, artistas como David Hockney, Beeple ou Refik Anadol têm explorado com entusiasmo os limites e possibilidades da arte gerada por algoritmos. A questão talvez não esteja na ferramenta, mas no ofício. Criar é atribuir sentido.
Produzir é realizar com eficiência. Misturá-los pode gerar ruídos — ou revoluções. Se compreendermos que há uma distinção essencial entre processo criativo e fluxo de produção, ganhamos clareza sobre onde a IA pode de fato contribuir. O processo criativo exige tempo, liberdade, introspecção, conexão com o mundo simbólico e emocional. É caótico, não-linear, muitas vezes improdutivo no sentido econômico. Já o processo produtivo exige organização, prazos, entregas, sistematização.
A IA, nesse contexto, pode ser aliada ao reduzir o peso das microtarefas, automatizar o que é repetitivo e liberar tempo e espaço psíquico para o pensamento criativo. No entanto, quando colocada para substituir a intuição, o estilo, o erro, ela se torna caricatura — porque a criação, antes de tudo, é um gesto de presença. Há riscos, claro. Éticos, sociais, emocionais.
O uso indiscriminado pode levar à saturação estética, à homogeneização de linguagens e à exploração de dados sensíveis. Mas também há ganhos: acesso ampliado, democratização de recursos, estímulo à experimentação. Para muitos artistas periféricos ou independentes, a IA é uma ponte onde antes havia um abismo. Quem teme ser substituído talvez esteja projetando uma visão estreita do próprio fazer artístico.
A IA não substitui vivência. E se há algo que ainda não sabemos replicar, é a experiência sentida de estar vivo. Por isso, talvez o verdadeiro debate não seja sobre o uso da IA, mas sobre como estamos nos relacionando entre nós mesmos nesse novo tempo. A forma como tratamos nossas relações humanas, como colaboramos, criamos coletivamente, nos responsabilizamos e coabitamos o planeta — tudo isso está no centro da equação.
A IA nos empurra para um novo patamar de convivência com inteligências não-humanas, e talvez essa seja a novidade real deste século. A arte seguirá existindo, como sempre existiu, em tensão com os meios de produção. Mas a pergunta agora não é o que vamos criar com a IA, e sim quem nos tornamos ao lado dela.
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